Epilepsia: sob a sombra da história
Dia 09 de setembro é a data oficial para conscientizar mídia e população para os problemas de uma síndrome que atinge quase 3 milhões de brasileiros, especialmente as crianças
por Enio Rodrigo
Uma síndrome de mil nomes. Quase nenhum deles que indique algo positivo na condição. No antigo Egito, os hieróglifos sugerem um castigo divino infligido ao homem. Mais tarde, de acordo com Rafael Bruno Neto, atribue-se ao próprio Hipócrates – tido como o “fundador da medicina” – descrever a doença em um dos livros de sua escola, intitulado “Da doença sagrada”, um dos poucos documentos históricos que não sugeria causas relacionadas com maldições e demônios. Hipócrates descreveu a doença dissociando-a do fato de ser boa ou má, mas simplesmente uma “doença” tratável com dietas e remédios.
Mesmo após essa descrição mais cética, a Síndrome Epiléptica – condição neurológica crônica que atinge atualmente cerca de 3 milhões de brasileiros – foi sendo associanda cada vez mais à idéia de negatividade.
“A superstição e o estigma continuaram rondando a epilepsia pelos dois milênios seguintes” diz Bruno Neto, professor do Departamento de Ciências Morfológicas da Universidade Estadual do Maringá (UEM), ao se referir à descrição de Hipócrates. “Por séculos a epilepsia foi considerada consequência da possessão de deuses e demônios, levando ao isolamento social os indivíduos com epilepsia e, em muitos casos, ao isolamento da família do paciente também. Em algumas culturas, as pessoas com epilepsia eram isoladas das demais na sociedade, para prevenir a ‘propagação’ da doença”, completa o pesquisador. Marleide de Mota Gomes, pesquisadora do Programa de Psiquiatria e Saúde Mental da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta também para a perseguição promovida pela Santa Inquisição. “Em 1494 foi lançado o manual de caçar bruxas. Nesse tratado, a presença de crises epilépticas era uma característica da feitiçaria”, diz a pesquisadora. Além disso, Marleide lembra que a terapêutica, para o que era descrito como um “mal obscuro” até o período renascentista, passou por diversas tentativas mal sucedidas, e muitas vezes cruéis, de cura para o que era considerado uma doença: consumo de sangue humano de pessoas recentemente mortas, pó de crânio, sangria do paciente, uso extremo de laxantes, indução constante do vômito, e em alguns casos, até a abertura de orifícios no crânio (a chamada trepanação craniana) da pessoa com epilepsia.
No Brasil, a primeira citação do termo epilepsia é de 1859. De acordo com Aderivaldo Ramos de Santana, é desse ano a tese apresentada pelo médico Francisco Pinheiro Guimarães na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. A pesquisa de Santana, realizada junto à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/Rio), e que analisou teses sobre o tema produzido no Brasil no início do século XX, relaciona ainda as questões de preconceito (racial e de gênero) e propensão ligadas ao diagnóstico da epilepsia: a condição era associada a um grupo social determinado (negros e escravos) ou ainda à condição feminina, tida como duplamente discriminada – pelo gênero e pela doença – já que além de ser considerada inferior, era também tida como especialmente sujeita à epilepsia e transmissora de um “grande mal”.
Todas essas pesquisas mostram como a condição da pessoa com epilepsia é uma condição historicamente estigmatizada (carregada de preconceitos) que transpassa diversas culturas, esbarra na religião e traz no seu cerne a discriminação, pura e simples.

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